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Antes e depois da cirurgia

Quais exames são pedidos antes de uma cirurgia ginecológica

Não existe pacote fixo de exames antes de cirurgia ginecológica: eles são escolhidos pelo porte, pela sua idade e pelas suas doenças. Veja o que se pede.

Retrato do Dr. Lucas G. S. Baptista, médico ginecologista e diretor técnico do Instituto de Ginecologia Avançada Dr. Lucas G. S. Baptista MÉDICO: CRM-SP 184.500 · Ginecologista: RQE 104.283 Publicado em 2 de setembro de 2026
Revisado em 18 de setembro de 2026 · 11 min de leitura

A resposta

Não existe um pacote fixo de exames antes de cirurgia ginecológica. Os exames são escolhidos um a um, pelo porte da cirurgia, pela sua idade, pelas doenças que você já tem e pelos remédios que usa.

A lista costuma chegar sem explicação, e ninguém gosta de furar o braço à toa. Mulher saudável que vai fazer um procedimento pequeno faz pouca coisa, às vezes nada além do que a anestesia pedir. Mulher com pressão alta, diabetes, anemia ou doença do coração faz uma avaliação mais detalhada, e ela começa antes de marcar a data. Essa não é uma posição particular da nossa equipe: a rotina de exames iguais para todo mundo saiu de cena há anos e foi substituída pelo exame pedido conforme o risco.

Detalhes técnicos para profissionais da saúdeO mesmo assunto com os estudos, os números e as fontes

O que pedimos, e quando

Exame Quando pedimos Para quê
Hemograma Sangramento aumentado, mioma grande, cirurgia de médio ou grande porte Descobrir anemia antes, e não depois
Exame de coagulação Uso de anticoagulante, sangramento fácil, história na família Planejar o controle do sangramento
Açúcar no sangue e função dos rins Diabetes, pressão alta, uso de diurético, idade mais avançada Ajustar anestesia e medicação
Eletrocardiograma Doença do coração conhecida, sintoma no esforço, risco pela idade Avaliar o coração antes da anestesia
Raio X do tórax Doença do pulmão relevante ou sintoma respiratório Não é rotina em mulher saudável
Teste de gravidez Mulher em idade fértil, conforme decisão conjunta Evitar operar sem saber de uma gravidez
Exame e cultura de urina Sintoma urinário, cirurgia para perda de urina ou prolapso Tratar infecção antes de operar
Ferro e reservas de ferro Anemia confirmada ou sangramento de longa data Corrigir o ferro antes da cirurgia
Imagem recente com laudo Praticamente toda indicação cirúrgica Confirmar o achado e planejar a via

Por que exame demais também atrapalha

Parece inofensivo pedir tudo, e não é. Exame sem indicação encontra alteração pequena e sem significado, que gera novo exame, consulta extra e adiamento da cirurgia. Isso custa tempo e custa ansiedade.

A evidência mais limpa nesse ponto veio de outra especialidade: em cirurgia de baixo risco, quem fez a bateria completa de exames não teve menos complicações do que quem fez só os exames indicados. É uma cirurgia diferente da nossa, e dizemos isso com todas as letras, mas o princípio é o mesmo. Testar sem uma pergunta clínica por trás não protege.

Há também o efeito inverso, que ninguém comenta. O exame pedido sem critério dá uma falsa sensação de segurança. Hemograma normal não afasta doença do coração, e eletrocardiograma normal não substitui a conversa sobre quanto esforço você consegue fazer no dia a dia. O que mais protege antes de uma cirurgia continua sendo a conversa bem feita e o exame físico.

Na ginecologia, o exemplo mais claro é a histeroscopia de consultório, feita sem anestesia geral. Ela não pede bateria de exames antes.

Quando o coração entra na conta

A avaliação do coração se organiza em duas perguntas: qual o risco da cirurgia e qual a sua capacidade de esforço. Cirurgia ginecológica marcada costuma ser de risco baixo ou intermediário, e mulher que sobe escadas sem sintoma raramente precisa de exame adicional do coração.

Quando existe doença cardíaca conhecida, sintoma novo no esforço, uso de stent ou de anticoagulante, a conversa muda e envolve o cardiologista antes da marcação. Esse é o cenário em que adiar duas semanas evita um problema sério.

Jejum e o que suspender

A consulta com o anestesista é parte do preparo e não é formalidade. É nela que se define a técnica, o que suspender e o que manter na manhã da cirurgia.

Sobre o jejum, a orientação atual é menos rígida do que a que circula. Líquidos claros são permitidos até duas horas antes do procedimento em quem não tem fator de risco específico. O tempo para alimento sólido é maior e quem define é o anestesista.

Sobre anticoncepcional, anticoagulante, anti-inflamatório e suplemento, a regra é trazer a lista completa, incluindo o que você toma por conta própria. A suspensão é individual, e suspender por conta pode ser pior do que manter.

O que levar na consulta antes da cirurgia

A consulta rende muito mais quando você chega com material na mão. Vale separar antes:

  • Exames de imagem com laudo e data, de preferência o disco ou o link, e não só o papel
  • Resultados de laboratório dos últimos seis meses
  • Lista de medicamentos em uso, com dose, incluindo hormônio, suplemento e fitoterápico
  • Relatório de cirurgias anteriores, com a descrição do que foi feito
  • Anotação do que você sente, há quanto tempo e o que já tentou
  • Doenças em acompanhamento e o nome do médico que acompanha cada uma

Quem já operou antes deve trazer também o tipo de anestesia usado e qualquer reação que tenha tido. Isso muda o planejamento da anestesia mais do que qualquer exame de rotina.

Perguntas frequentes

Posso operar menstruada?

Na maioria das cirurgias, sim. Na histeroscopia a data importa, porque o revestimento fino melhora a visão de dentro do útero, e por isso costumamos programar logo depois do fim da menstruação.

Preciso parar o anticoncepcional antes?

Depende do tipo de hormônio, do porte da cirurgia e do seu risco de trombose. É decisão da consulta antes da cirurgia, e nunca por conta própria.

Quanto tempo de jejum?

Líquidos claros são permitidos até duas horas antes em quem não tem fator de risco. O tempo para alimento sólido é maior e será definido pelo anestesista.

Meus exames de seis meses atrás servem?

Exames de laboratório costumam ser aceitos por alguns meses quando nada mudou na sua saúde. Já o exame de imagem que sustenta a indicação precisa ser recente, porque mioma, pólipo e cisto mudam de tamanho.

Por que pediram exame de urina se minha cirurgia não é urinária?

Infecção urinária ativa adia a cirurgia, porque aumenta o risco depois. Em cirurgia para perda de urina ou prolapso, o exame é regra.

Preciso repetir o preventivo antes de operar?

Só se estiver fora do prazo de rastreamento ou se houver sintoma que peça investigação do colo do útero.

Tenho anemia. A cirurgia atrasa?

Costuma valer a pena tratar antes, com ferro, e operar com reserva melhor. Em sangramento de longa data isso muda toda a recuperação.

A partir daqui, a versão completa

O mesmo assunto com os estudos, os números e as fontes, para quem quer o detalhe. Cada seção tem link de volta para o resumo acima.

A resposta direta

Sabemos que a lista de exames costuma chegar sem explicação, e que ninguém gosta de furar o braço à toa. Então vale dizer o que mudou: não existe um pacote fixo de exames antes de cirurgia ginecológica.

O que existe é uma escolha dirigida. Os exames são definidos pelo porte da cirurgia, pela sua idade, pelas doenças que você já tem e pelos remédios que usa. Mulher saudável operando um procedimento pequeno faz pouca coisa, às vezes nada além do que a anestesia pedir. Mulher com hipertensão, diabetes, anemia ou doença cardíaca faz uma avaliação mais detalhada, e ela começa antes de marcar a data.

Essa não é uma posição particular da nossa equipe. A diretriz NG45 do NICE, publicada em 2016 e sem atualização registrada desde então, organizou exatamente isso: exame pré-operatório de rotina para todo mundo saiu de cena e foi substituído por exame indicado pelo risco.

O que pedimos, e quando

Exame Quando pedimos Para quê
Hemograma Sangramento uterino anormal, mioma volumoso, cirurgia de médio ou grande porte Identificar anemia antes, não depois
Coagulograma Uso de anticoagulante, sangramento fácil, história familiar Planejar a hemostasia
Glicemia e função renal Diabetes, hipertensão, uso de diurético, idade mais avançada Ajustar anestesia e medicação
Eletrocardiograma Doença cardíaca conhecida, sintoma cardíaco, risco pela idade e pela cirurgia Avaliação cardiovascular perioperatória
Radiografia de tórax Doença pulmonar relevante ou sintoma respiratório Não é rotina em mulher saudável
Beta-HCG Mulher em idade fértil, conforme decisão compartilhada Evitar cirurgia na vigência de gravidez
Urina tipo 1 e urocultura Sintoma urinário, cirurgia uroginecológica Tratar infecção antes de operar
Ferritina e ferro sérico Anemia confirmada ou sangramento crônico Corrigir o ferro antes da cirurgia
Imagem recente com laudo Praticamente toda indicação cirúrgica Confirmar o achado e planejar a via

Por que exame demais também faz mal

Parece inofensivo pedir tudo, e não é. Exame sem indicação encontra alteração pequena e sem significado, que gera novo exame, consulta extra e adiamento de cirurgia. Isso tem custo em tempo e em ansiedade.

A evidência mais limpa nesse ponto veio de outra especialidade. A revisão Cochrane de Keay e colaboradores, de 2019, avaliou exames pré-operatórios de rotina antes de cirurgia de catarata e não encontrou redução de eventos adversos em quem fez a bateria completa comparado a quem fez avaliação dirigida. É cirurgia diferente da nossa, e dizemos isso com todas as letras, mas o princípio é o mesmo: em procedimento de baixo risco, testar sem pergunta clínica não protege.

Há também o efeito inverso, que ninguém comenta: o exame pedido sem critério dá uma falsa sensação de segurança. Hemograma normal não afasta doença cardíaca, e eletrocardiograma normal não substitui a conversa sobre o que você consegue fazer de esforço no dia a dia. O que mais protege no pré-operatório continua sendo a anamnese bem feita e o exame físico.

Na ginecologia, o exemplo mais claro é a histeroscopia de consultório. O Green-top nº 59 do RCOG, de 2024, primeira autora De Silva PM, descreve o procedimento ambulatorial sem anestesia geral, e ele não pede bateria pré-operatória. Como é a preparação real está em Como se preparar para a histeroscopia.

A avaliação do coração, quando entra

A diretriz de manejo cardiovascular perioperatório da AHA e do ACC, de 2024, primeira autora Thompson A, organiza a conduta em duas perguntas: qual o risco da cirurgia e qual a capacidade funcional da paciente. Cirurgia ginecológica eletiva costuma ser de risco baixo ou intermediário, e mulher que sobe escadas sem sintoma raramente precisa de exame cardíaco adicional.

Quando há doença cardíaca conhecida, sintoma novo no esforço, uso de stent ou de anticoagulante, a conversa muda e envolve o cardiologista antes da marcação. Esse é o cenário em que adiar duas semanas evita um problema sério.

Consulta pré-anestésica, jejum e o que suspender

A consulta com o anestesista é parte do preparo e não é formalidade. É nela que se define a técnica, o que suspender e o que manter na manhã da cirurgia.

Sobre o jejum, a orientação atual é menos rígida do que a que circula. As diretrizes de jejum pré-operatório da Sociedade Americana de Anestesiologistas de 2023, primeiro autor Joshi GP, mantêm líquidos claros até duas horas antes do procedimento em paciente sem fator de risco específico. O Position Statement nº 2/2022 da FEBRASGO, primeira autora Santiago AE, trouxe o mesmo raciocínio para a ginecologia dentro do programa ERAS: jejum abreviado, controle da dor sem depender de opioide e saída da cama no mesmo dia. Esse documento é brasileiro e está publicado em português na revista Femina, da própria FEBRASGO, o que permite ler a fonte inteira sem depender de tradução.

Sobre anticoncepcional, anticoagulante, anti-inflamatório e suplemento, a regra é trazer a lista completa, incluindo o que você toma por conta própria. A suspensão é individual, e suspender por conta pode ser pior do que manter.

O que trazer para a consulta pré-operatória

A consulta rende muito mais quando você chega com material na mão. Vale separar antes:

  • Exames de imagem com laudo e data, de preferência o disco ou o link, não só o papel
  • Resultados laboratoriais dos últimos seis meses
  • Lista de medicamentos em uso, com dose, incluindo hormônio, suplemento e fitoterápico
  • Relatório de cirurgias anteriores, com a descrição do ato, se você tiver
  • Anotação do que sente, há quanto tempo e o que já tentou
  • Doenças em acompanhamento e nome do médico que acompanha cada uma

Quem já operou antes deve trazer também o tipo de anestesia usado e qualquer reação que tenha tido, porque isso muda o planejamento anestésico mais do que qualquer exame de rotina.

Sobre o preventivo, vale conferir a data antes de vir. Quem define o prazo de rastreamento no Brasil é o Ministério da Saúde, pelo Instituto Nacional de Câncer, cujo volume mais recente das diretrizes brasileiras trata do rastreamento organizado com teste molecular para detecção de DNA-HPV oncogênico. É essa data que a consulta confere.

Cobertura pelo plano de saúde

Exames pré-operatórios indicados constam no rol de procedimentos da ANS e, havendo indicação médica, costumam ter cobertura pelos planos de saúde. A autorização depende de cada contrato. O caminho completo da autorização cirúrgica está em Cirurgia ginecológica pelo convênio.

Em quais hospitais operamos

Samaritano Paulista, Samaritano Higienópolis, Blanc, Leforte Liberdade, São Luiz Alphaville, São Luiz Morumbi e Alvorada Moema.

Quem faz

A avaliação pré-operatória no Instituto de Ginecologia Avançada é conduzida pelo cirurgião responsável pelo seu caso, em conjunto com o anestesista e, quando indicado, com o cardiologista. Cada caso é discutido entre os médicos antes de qualquer decisão.

Perguntas frequentes

Posso operar menstruada?

Na maioria das cirurgias, sim. Em histeroscopia a data importa, porque o endométrio fino melhora a visão da cavidade, e por isso costumamos programar logo após o fim da menstruação. O detalhe está em Histeroscopia diagnóstica ou cirúrgica.

Preciso parar o anticoncepcional antes da cirurgia?

Depende do tipo de hormônio, do porte da cirurgia e do seu risco de trombose. É decisão da consulta pré-operatória, e nunca por conta própria.

Quanto tempo de jejum antes da cirurgia?

As diretrizes atuais permitem líquidos claros até duas horas antes em paciente sem fator de risco. O tempo para alimento sólido é maior e será definido pelo anestesista.

Meus exames de seis meses atrás servem?

Exames laboratoriais costumam ser aceitos por alguns meses quando nada mudou na sua saúde. Exame de imagem que sustenta a indicação cirúrgica precisa ser recente, porque mioma, pólipo e cisto mudam de tamanho. O tamanho pesa na decisão, como está em O tamanho do mioma decide a cirurgia?.

Por que pediram exame de urina se minha cirurgia não é urinária?

Infecção urinária ativa é motivo de adiamento por aumentar risco no pós-operatório. Em cirurgia uroginecológica o exame é regra, e na cirurgia de prolapso ele entra no mesmo raciocínio descrito em Sinto uma bola na vagina.

Preciso repetir o preventivo antes de operar?

Só se estiver fora do prazo de rastreamento ou se houver sintoma que peça investigação do colo. Depois de histerectomia a regra muda, e ela está em Preventivo depois de tirar o útero.

Tenho anemia. A cirurgia atrasa?

Costuma valer a pena tratar antes, com ferro, e operar com reserva melhor. Em sangramento crônico por mioma isso muda o pós-operatório inteiro, tema de Tratar mioma sem tirar o útero.

Próximo passo

Agende uma avaliação com nossa equipe de cirurgia ginecológica. Saímos da consulta com a lista de exames que o seu caso pede, e apenas ela.

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Routine preoperative tests for elective surgery. NICE Guideline NG45. Publicada em 05/04/2016. nice.org.uk/guidance/ng45
  2. Thompson A, et al. 2024 AHA/ACC/ACS/ASNC/HRS/SCA/SCCT/SCMR/SVM Guideline for Perioperative Cardiovascular Management for Noncardiac Surgery. Circulation. 2024. DOI 10.1161/CIR.0000000000001285
  3. Joshi GP, et al. 2023 American Society of Anesthesiologists Practice Guidelines for Preoperative Fasting. Anesthesiology. 2023. DOI 10.1097/ALN.0000000000004381
  4. Santiago AE, et al. Perioperative management in gynecological surgery based on the ERAS program. FEBRASGO Position Statement nº 2/2022. Rev Bras Ginecol Obstet / Femina. 2022. DOI 10.1055/s-0042-1743401. Versão em português: Manejo perioperatório em cirurgia ginecológica baseado no programa ERAS. Femina. 2022;50(2):112-120. DOI 10.61622/0100-7254502202206
  5. Keay L, Lindsley K, Tielsch J, Katz J, Schein O. Routine preoperative medical testing for cataract surgery. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2019. DOI 10.1002/14651858.CD007293.pub4
  6. De Silva PM, et al. Outpatient Hysteroscopy. RCOG Green-top Guideline No. 59. BJOG. 2024. DOI 10.1111/1471-0528.17907
  7. Instituto Nacional de Câncer. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero: volume 1, rastreamento organizado com teste molecular para detecção de DNA-HPV oncogênico. Rio de Janeiro: INCA, 2025. ninho.inca.gov.br

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