A resposta
Tirar as trompas previne câncer de ovário em parte, e é por isso que oferecemos a retirada delas dentro de uma cirurgia pélvica que já estava indicada. O motivo é anatômico: boa parte dos cânceres de ovário, inclusive o tipo mais comum e mais agressivo, começa na ponta da trompa, e não na superfície do ovário. Retirada a trompa, sai o tecido onde o tumor costuma nascer.
Essa conversa quase nunca acontece antes da cirurgia no Brasil, e muita mulher descobre depois que a oportunidade passou. A decisão sobre as trompas pertence à sua consulta pré-operatória, e não ao relatório que você lê meses depois.
Duas coisas para tirar do caminho desde já. Retirar as trompas não é retirar os ovários, e não provoca menopausa. E reduzir risco não é eliminar risco: o ovário e a membrana que reveste o abdome continuam existindo, e parte dos tumores não começa na trompa. Nenhuma cirurgia zera a chance de câncer de ovário, e afirmar isso vai além da evidência.
Por que a trompa, e não o ovário
A mudança veio do exame do tecido ao microscópio. Lesões que antecedem o tumor foram encontradas na extremidade da trompa antes de qualquer doença aparecer no ovário, e isso reposicionou o alvo da prevenção.
O detalhe que torna a coisa viável é hormonal: a trompa não produz estrogênio nem progesterona. Retirá-la não mexe na função do ovário. Retirar os dois ovários é outra decisão, de outra natureza, e em mulheres abaixo dos 50 anos ela se associou a mais mortes por todas as causas ao longo de quase três décadas de acompanhamento.
O que se sabe, e o que ainda não se sabe
O estudo populacional mais citado comparou cerca de 26 mil pessoas que tiveram as trompas retiradas com cerca de 32 mil que fizeram histerectomia isolada ou laqueadura. No grupo com as trompas retiradas não houve nenhum caso do tipo mais agressivo de câncer de ovário, contra cinco esperados pela taxa do outro grupo. Cânceres de mama e de intestino apareceram na proporção esperada, o que fala contra uma distorção grosseira entre os grupos.
Os consensos internacionais mais recentes revisaram centenas de estudos e concluíram que a retirada das trompas se associa a menor risco de câncer de trompa e de ovário, sem prejuízo de curto prazo para a função do ovário, com pouco tempo cirúrgico a mais e possível por qualquer caminho de cirurgia.
Os próprios autores registram o limite, e nós repetimos: ainda não existe evidência de longo prazo sobre a função do ovário depois da retirada das trompas, e a força das recomendações varia bastante de um item para outro. É orientação firme no sentido prático e prudente no sentido científico.
Quando isso é oferecido
| O que é retirado | Efeito nos hormônios | Efeito sobre o risco de câncer de ovário |
|---|---|---|
| As duas trompas inteiras | Nenhum | Menos casos do que o esperado, sem zerar o risco |
| Um segmento da trompa, na laqueadura | Nenhum | Redução menor que a da retirada completa |
| Os dois ovários | Menopausa imediata | Redução maior, ao custo hormonal |
Duas situações principais. A primeira, dentro de uma cirurgia ginecológica já indicada por outro motivo, com destaque para a histerectomia por doença benigna, em que as trompas saem junto e os ovários ficam. A segunda, no lugar da laqueadura, para quem já decidiu por contracepção definitiva.
Quem tem mutação genética de alto risco está em outro capítulo, com protocolo próprio e acompanhamento em oncogenética, e a conduta não se resume a retirar trompas numa cirurgia de oportunidade. Quem ainda deseja engravidar não é candidata, porque retirar as duas trompas encerra a possibilidade de gravidez espontânea.
Esse assunto aparece pouco no conteúdo médico em português, e a paciente brasileira raramente ouve falar dele antes de assinar o consentimento.
Como é feita e como é a recuperação
A retirada das trompas é feita no mesmo tempo cirúrgico, por laparoscopia na maioria das vezes, e acrescenta poucos minutos ao procedimento principal. As trompas são cortadas rente ao útero, preservando os vasos que irrigam o ovário. Quando a cirurgia principal é feita por dentro da vagina, nem sempre dá para alcançá-las, e isso se avalia durante o procedimento.
A recuperação é a da cirurgia principal, e não muda por causa das trompas.
Vale dizer o que a retirada das trompas não faz. Ela não substitui a investigação de nenhum sintoma, não elimina o risco de câncer de ovário e não altera o rastreamento que já cabe a você.
Perguntas frequentes
Tirar as trompas entra na menopausa?
Não. A trompa não produz hormônio. Quem determina a menopausa é o ovário.
Tirar as trompas é o mesmo que laqueadura?
Não. A laqueadura interrompe um segmento da trompa, e a retirada tira a trompa inteira, que é onde o tumor costuma começar. As duas são contracepção definitiva.
Posso pedir a retirada das trompas na minha cirurgia?
Pode, e essa conversa é recomendada antes de qualquer cirurgia ginecológica. A indicação final é médica e leva em conta o seu desejo de gravidez futura.
Isso elimina o risco de câncer de ovário?
Não elimina. Reduz. O ovário e a membrana que reveste o abdome permanecem, e parte dos tumores não começa na trompa.
Tenho histórico familiar forte. Basta retirar as trompas?
Não. Histórico familiar relevante indica avaliação em oncogenética, e quem tem mutação de alto risco segue protocolo próprio.
A retirada das trompas atrapalha a função dos ovários?
No curto prazo, não se encontrou prejuízo. Os próprios autores registram que falta evidência de longo prazo.
Ainda posso engravidar depois?
De forma espontânea, não. Por isso a decisão precisa ser tomada antes da cirurgia, com tempo.
O mesmo assunto com os estudos, os números e as fontes, para quem quer o detalhe. Cada seção tem link de volta para o resumo acima.
A resposta direta
Sim, retirar as trompas durante uma cirurgia pélvica já indicada se associa a menos câncer de ovário. A evidência vem de coortes, não de ensaio randomizado, e as sociedades pesam isso de formas diferentes. Isso tem nome, salpingectomia oportunista, e deixou de ser uma opção avulsa para virar recomendação formal em pouco tempo: a FIGO publicou seu posicionamento em 2024 (Mor- Hadar e colaboradores), a ESGO publicou seus consensos no JAMA em 2026 (Piek e colaboradores) e o Colégio Americano publicou sua atualização de prática no mesmo ano. O Brasil entrou nessa lista em 2026: a FEBRASGO publicou o posicionamento nº 12 sobre o tema (Silva Filho e colaboradores), referendado pela sua comissão de ginecologia oncológica.
Sabemos que essa conversa quase nunca acontece antes da cirurgia no Brasil, e que muita mulher descobre depois que a oportunidade passou. A decisão sobre as trompas precisa estar na sua consulta pré-operatória, e não no relatório que você lê depois.
Duas coisas para tirar do caminho já. Retirar as trompas não é retirar os ovários, e não provoca menopausa. E redução de risco não é eliminação de risco: o ovário e o peritônio continuam existindo.
Por que a trompa, e não o ovário
A mudança veio da patologia. O carcinoma seroso de alto grau, que é o subtipo mais comum e mais letal do que se chama câncer de ovário, costuma se originar no epitélio da extremidade da trompa, e não na superfície do ovário. Lesões precursoras foram identificadas ali antes de qualquer doença aparecer no ovário. Retirada a trompa, retira-se o tecido onde o tumor começa.
O detalhe que torna isso viável é hormonal. A trompa não produz estrogênio nem progesterona. Retirá-la não mexe na função ovariana, ao contrário da retirada dos ovários, que em mulheres abaixo dos 50 anos se associou a maior mortalidade geral no acompanhamento de 28 anos de Parker e colaboradores (2013). Retirar trompa e retirar ovário são decisões de natureza diferente, e a segunda tem indicações próprias, tratadas em Tirar o útero entra na menopausa?.
Que evidência sustenta isso
O estudo de base populacional de Hanley e colaboradores (JAMA Network Open, 2022) comparou 25.889 pessoas submetidas a salpingectomia oportunista na Colúmbia Britânica com 32.080 submetidas a histerectomia isolada ou laqueadura. No grupo com as trompas retiradas, não houve nenhum câncer seroso de ovário, contra 5,27 esperados pela taxa do grupo de comparação, e houve cinco ou menos cânceres epiteliais contra 8,68 esperados. Cânceres de mama e de intestino ocorreram como esperado, o que fala contra um viés de seleção grosseiro.
Os consensos da ESGO de 2026 revisaram 230 estudos, consideraram 129 e fecharam 18 declarações com mais de 75% de concordância. As conclusões: a salpingectomia oportunista se associa a menor risco de carcinoma tubo-ovariano, sem impacto adverso de curto prazo na função ovariana, com pouco tempo cirúrgico adicional e viável por qualquer via. O posicionamento brasileiro de 2026 é o mais direto sobre o que fazer na consulta: recomenda a salpingectomia durante a histerectomia com preservação dos ovários por indicação benigna em quem já completou a prole, e a coloca como alternativa preferencial à laqueadura para quem busca contracepção definitiva em cirurgia eletiva. O mesmo documento registra que a idade sozinha não exclui uma candidata e que o procedimento não deve ser feito em emergência.
Os próprios autores registram o limite: não há ainda evidência de longo prazo sobre função ovariana, e os graus de recomendação vão de B a D. É uma recomendação forte no sentido prático e prudente no sentido científico, e nós a apresentamos exatamente assim.
| Salpingectomia oportunista | Laqueadura tubária | Retirada dos dois ovários | |
|---|---|---|---|
| O que é retirado | As duas trompas, inteiras | Um segmento da trompa, que é ligada ou seccionada | Os dois ovários |
| Efeito hormonal | Nenhum | Nenhum | Menopausa imediata |
| Contracepção | Definitiva | Definitiva | Definitiva |
| Efeito sobre câncer de ovário | Menos casos que o esperado em coorte populacional (Hanley, 2022) | Redução menor que a da retirada completa | Redução maior, ao custo hormonal |
| Posição das sociedades | Recomendada (FIGO 2024, ESGO 2026, ACOG 2026), com força que vai de B a D nos próprios documentos | Alternativa quando a salpingectomia não é viável | Reservada a indicação médica específica |
| Tempo cirúrgico a mais | Pouco (ESGO, 2026) | Referência | Pouco |
Quando é indicada
Em duas situações principais. A primeira, dentro de uma cirurgia ginecológica já indicada por outro motivo, com destaque para a histerectomia por doença benigna, em que as trompas saem junto e os ovários ficam. A segunda, no lugar da laqueadura tubária, para quem já decidiu por contracepção definitiva.
Os consensos da ESGO de 2026 vão além e sugerem considerar a salpingectomia também em cirurgias pélvicas ou abdominais não ginecológicas selecionadas, quando o acesso permite e a paciente concorda. Isso ainda é pouco praticado no Brasil.
Quem tem mutação de alto risco, como BRCA1 e BRCA2, está em outro capítulo: essas pacientes têm protocolo próprio de redução de risco, com acompanhamento em oncogenética, e a conduta não se resume a retirar trompas em uma cirurgia de oportunidade.
Quem ainda deseja engravidar não é candidata, porque a retirada das duas trompas encerra a possibilidade de gravidez espontânea.
A FEBRASGO não tem protocolo nem posicionamento dedicado à histerectomia por doença benigna, e o posicionamento brasileiro sobre salpingectomia oportunista é recente, de 2026. O resultado prático é que a paciente brasileira raramente ouve falar disso antes de assinar o consentimento, mesmo tendo três sociedades internacionais recomendando a conversa desde 2024. cortar a frase inteira. O parágrafo já disse tudo antes dela.
Como é feita e como é a recuperação
A salpingectomia é feita no mesmo tempo cirúrgico, por laparoscopia na maioria das vezes, e acrescenta poucos minutos ao procedimento principal. As trompas são seccionadas rente ao útero, preservando os vasos que irrigam o ovário. Quando a cirurgia principal é vaginal, retirar as trompas nem sempre é possível, e isso se avalia no intraoperatório.
A recuperação é a da cirurgia principal, e não muda por causa das trompas. As vias e seus prazos estão comparados em Histerectomia: vias e recuperação.
Vale dizer o que a salpingectomia não faz. Ela não substitui investigação de sintoma, não elimina o risco de câncer de ovário e não altera a necessidade de seguir com o rastreamento que já cabe a você, assunto de Preventivo depois de tirar o útero.
Cobertura pelo plano de saúde
A salpingectomia consta no rol de procedimentos da ANS e, havendo indicação médica, costuma ter cobertura pelos planos de saúde, inclusive quando realizada no mesmo tempo de outra cirurgia. A autorização depende de cada contrato, e o pedido segue com relatório clínico e os códigos do procedimento.
O passo a passo da autorização, do pedido à resposta da operadora, está em Cirurgia ginecológica pelo convênio. Se o pedido for negado, o caminho médico está em Meu convênio negou a cirurgia.
Em quais hospitais operamos
Samaritano Paulista, Samaritano Higienópolis, Blanc, Leforte Liberdade, São Luiz Alphaville, São Luiz Morumbi e Alvorada Moema.
Quem faz
A cirurgia ginecológica do Instituto de Ginecologia Avançada é conduzida por Dr. José Ricardo W. Ristow (CRM-SP 206.100, RQE 114.593), Dra. Lorena Cerutti (CRM-SP 219.409, RQE 124.944) e Dr. Carlos Guilherme Del Roy (CRM-SP 216.943, RQE 128.844). Cada caso é discutido entre os médicos.
O que levar na primeira consulta
- História de câncer de ovário, mama, endométrio ou intestino na família, com o parentesco
- Resultado de teste genético, se já fez
- Ultrassom transvaginal recente e o laudo completo
- Relatório de cirurgias abdominais anteriores
- Sua decisão sobre gravidez futura, escrita, para discutir com calma
A lista completa, que vale para qualquer consulta cirúrgica, está em O que levar na primeira consulta.
Os exames pedidos antes de uma cirurgia ginecológica, e por que cada um é pedido, estão em Exames antes de uma cirurgia ginecológica.
Perguntas que você deveria fazer ao seu cirurgião
- Minhas trompas vão ser retiradas nesta cirurgia? Por quê?
- Isso acrescenta tempo, risco ou custo ao procedimento?
- Meus ovários vão ficar?
- Meu histórico familiar indica avaliação genética antes?
- Se a via for vaginal, dá para retirar as trompas mesmo assim?
- O que muda no meu seguimento depois?
O que perguntar sobre formação, registro e volume de quem vai operar está em Como escolher o cirurgião.
Perguntas frequentes
Tirar as trompas entra na menopausa?
Não. A trompa não produz hormônio. Quem determina a menopausa é o ovário.
Tirar as trompas é o mesmo que laqueadura?
Não. A laqueadura interrompe um segmento da trompa; a salpingectomia retira a trompa inteira, que é onde o carcinoma seroso costuma começar. As duas são contracepção definitiva.
Posso pedir a retirada das trompas na minha cirurgia?
Pode, e essa conversa é recomendada pelas sociedades antes de qualquer cirurgia ginecológica. A indicação final é médica e leva em conta o seu desejo de gravidez futura.
Isso elimina o risco de câncer de ovário?
Não elimina. Reduz. O ovário e o peritônio permanecem, e parte dos tumores não começa na trompa.
Tenho histórico familiar forte. Basta retirar as trompas?
Não. Histórico familiar relevante indica avaliação em oncogenética, e quem tem mutação de alto risco segue protocolo próprio.
A retirada das trompas atrapalha a função dos ovários?
Os consensos da ESGO de 2026 não encontraram impacto adverso de curto prazo. Eles próprios registram que falta evidência de longo prazo.
Muda alguma coisa no sexo?
Não. A trompa não participa da resposta sexual. O que muda depois da histerectomia está em Sexo depois de tirar o útero.
Ainda posso engravidar depois?
De forma espontânea, não. Por isso a decisão precisa ser tomada antes da cirurgia, com tempo.
Próximo passo
Agende uma avaliação com nossa equipe de cirurgia ginecológica. Se você tem uma cirurgia ginecológica marcada, essa é a hora de decidir sobre as trompas, e não depois.
Referências
- Mor-Hadar D, Wilailak S, Berek J, McNally OM; FIGO Committee on Women's Cancer. FIGO position statement on opportunistic salpingectomy as an ovarian cancer prevention strategy. International Journal of Gynecology & Obstetrics. 2024;167(3):976-980. DOI 10.1002/ijgo.15884 · PMID 39412638
- Piek JM, Schauwaert J, Ellis LB, et al. Opportunistic Salpingectomy for Prevention of Tubo-Ovarian Carcinoma: The European Society of Gynaecological Oncology Consensus Statements. JAMA. 2026;335(10):894-902. DOI 10.1001/jama.2025.24510 · PMID 41627806
- American College of Obstetricians and Gynecologists. ACOG Clinical Practice Update: Salpingectomy for the Prevention of Epithelial Ovarian Cancer. Obstetrics & Gynecology. 2026;148(4):e275-e280. DOI 10.1097/AOG.0000000000006400
- Hanley GE, Pearce CL, Talhouk A, Kwon JS, Finlayson SJ, McAlpine JN, Huntsman DG, Miller D. Outcomes From Opportunistic Salpingectomy for Ovarian Cancer Prevention. JAMA Network Open. 2022;5(2):e2147343. DOI 10.1001/jamanetworkopen.2021.47343 · PMID 35138400
- Pickett CM, Seeratan DD, Mol BWJ, Nieboer TE, Johnson N, Bonestroo T, Aarts JW. Surgical approach to hysterectomy for benign gynaecological disease. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2023;8(8):CD003677. DOI 10.1002/14651858.CD003677.pub6 · PMID 37642285
- Parker WH, Feskanich D, Broder MS, et al. Long-term mortality associated with oophorectomy compared with ovarian conservation in the Nurses' Health Study. Obstetrics & Gynecology. 2013;121(4):709-716. DOI 10.1097/AOG.0b013e3182864350 · PMID 23635669
- Silva Filho AL, Cândido EB, Carvalho JP, Derchain SFM, Reis R. Salpingectomia oportunista para prevenção do câncer de ovário. Posicionamento FEBRASGO nº 12, 2026. Femina. 2026;54(7):562-571. DOI 10.61622/0100-7254547202606
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Agende uma avaliaçãoAssinado por Dr. Kevin F. A. Oliveira, MÉDICO: CRM-SP 196.633 · Ginecologista: RQE 110.796, e revisado em 18/09/2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.
