A resposta
Fazer preventivo depois de tirar o útero depende de duas perguntas, e as duas têm resposta no seu relatório cirúrgico: o colo do útero foi retirado, e qual foi o motivo da cirurgia.
Se o colo saiu e a cirurgia foi por doença benigna, sem lesão de alto grau no colo antes e com exames anteriores normais, o rastreamento pode ser encerrado. Se a cirurgia foi por lesão que antecede o câncer ou por câncer do colo, ele continua, com coleta no topo da vagina, por pelo menos 25 anos ou sem prazo para acabar. Se o colo ficou, nada muda: você segue no rastreamento como qualquer mulher da sua idade. E se você não tem certeza do motivo da cirurgia, o rastreamento é mantido até essa certeza aparecer.
Essa dúvida chega meses depois da cirurgia, quando vem a lembrança do exame anual e ninguém explicou o que fazer. A regra segura é simples: na dúvida, continua.
Por que o exame para em um caso e continua no outro
O preventivo rastreia o colo do útero. Retirado o colo, o alvo do exame saiu junto, e sobra a parede da vagina. O câncer de vagina é raro, e o exame rende muito pouco em quem não tem mais colo. O incômodo do rastreamento, que são achados de significado incerto, exames adicionais e ansiedade, passa a pesar mais do que o ganho.
A exceção tem base concreta. Entre mulheres com lesão de alto grau ou câncer de vagina, cerca de metade já havia passado por histerectomia, e quatro em cada cinco dessas cirurgias foram motivadas por lesão ou câncer do colo. O HPV, o vírus por trás dessas lesões, pode ter comprometido também o revestimento da vagina. Nesse grupo, o rastreamento continua.
As recomendações brasileiras sobre isso são condicionais e apoiadas em evidência ainda limitada: são orientações razoáveis, e não verdades fechadas.
Quem continua fazendo, mesmo sem o colo
| Sua situação | O preventivo | Como é feito |
|---|---|---|
| Colo retirado, cirurgia por doença benigna, sem lesão de alto grau antes, exames normais | Pode ser encerrado | Não se aplica |
| Colo retirado, cirurgia por lesão do colo ou por câncer do colo | Mantido | Coleta no topo da vagina, por ao menos 25 anos |
| Colo mantido, na histerectomia parcial | Mantido, como para qualquer mulher | Conforme a sua faixa de idade |
| Motivo da cirurgia desconhecido ou incerto | Mantido | Coleta no topo da vagina |
Três situações individualizam a conduta. A imunidade reduzida, por HIV, transplante ou medicação que baixa a defesa, em que os intervalos seguem regra própria. Ter tido lesão de alto grau tratada, ainda que anos antes da cirurgia. E um achado inesperado no exame do tecido, o que reabre todo o planejamento.
Um recado que importa mais do que o exame em si: parar o preventivo não significa parar de ir ao ginecologista. Continuam o exame da vulva e da vagina, o rastreamento do câncer de mama conforme a idade, o cuidado com os ossos e o acompanhamento do assoalho pélvico. A histerectomia se associa a mais perda de urina nos dez primeiros anos e, depois disso, a mais descida dos órgãos da pelve.
Como é a coleta quando ela continua
Sem colo, o exame passa a ser feito no topo da vagina, a parte fechada com pontos na cirurgia. É um exame de consultório, com espéculo, sem preparo especial, e leva poucos minutos.
Dor não faz parte do procedimento. Se você tem ressecamento vaginal, diga antes da coleta: isso tem tratamento e muda o conforto do exame.
O rastreamento brasileiro se reorganizou em torno do teste que detecta o HPV, hoje o exame de primeira linha no lugar da citologia. Qual método será usado na sua coleta depende do serviço e da indicação, e é pergunta legítima para levar à consulta.
Quando retomar o acompanhamento de rotina
Nas primeiras semanas depois da cirurgia, o topo da vagina ainda está cicatrizando, e não se faz coleta. O retorno pós-operatório, em torno de seis semanas, serve para checar a cicatriz, e é nele que a sua conduta de rastreamento é definida.
Peça que isso fique por escrito. Se o seu rastreamento foi encerrado, o motivo precisa estar registrado, para que nenhum profissional futuro reabra a discussão do zero. Aproveite o retorno para revisar o destino das trompas, o dos ovários e quando a vida sexual pode ser retomada.
Perguntas frequentes
Ainda preciso fazer preventivo depois de tirar o útero?
Se o colo saiu e a cirurgia foi por doença benigna, sem lesão de alto grau antes e com exames anteriores normais, o rastreamento pode ser encerrado. Nos demais casos, continua.
Tirei o útero mas ficou o colo. E agora?
Você segue no rastreamento como qualquer mulher da sua faixa de idade, porque o órgão que o exame investiga continua lá.
Não sei por que fiz a histerectomia. O que faço?
Mantém o rastreamento e busca o relatório cirúrgico e o exame do tecido. A orientação é manter enquanto não houver certeza de que a indicação foi benigna.
O que é coleta no topo da vagina?
É a coleta feita em quem já não tem colo, no ponto fechado na cirurgia. O procedimento de consultório é o mesmo, com espéculo.
Operei por mioma. Preciso continuar?
Mioma é doença benigna. Com o colo retirado e sem lesão de alto grau antes, o rastreamento do colo pode ser encerrado.
Se eu parar o preventivo, paro de ir ao ginecologista?
Não. Continuam o exame da vulva e da vagina, o rastreamento do câncer de mama e o acompanhamento do assoalho pélvico.
E o teste de HPV, entra nessa conta?
O teste que detecta o vírus passou a ser o exame de primeira linha. Para quem segue em coleta no topo da vagina, o método se define conforme avaliação médica.
O mesmo assunto com os estudos, os números e as fontes, para quem quer o detalhe. Cada seção tem link de volta para o resumo acima.
A resposta direta
Sabemos que essa dúvida costuma aparecer meses depois da cirurgia, quando chega a lembrança do exame anual e ninguém explicou o que fazer. A resposta depende de duas perguntas, e as duas têm resposta no seu relatório cirúrgico.
A primeira: o colo do útero foi retirado? A segunda: qual foi o motivo da cirurgia?
Se o colo saiu (histerectomia total) e a cirurgia foi por doença benigna, sem história de lesão cervical de alto grau e com exames anteriores normais, você pode ser excluída do rastreamento. É o que diz a Recomendação 34 das Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, 3.ª edição, publicada pelo INCA em 2025, e é também a orientação da força-tarefa americana desde 2018, que recomenda contra o rastreamento nesse cenário. O mesmo texto foi aprovado pelo Ministério da Saúde na Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025, o que o torna norma vigente no SUS, e não proposta em consulta.
Se a cirurgia foi por lesão precursora ou por câncer do colo, o rastreamento continua, com coleta vaginal, por pelo menos 25 anos ou indefinidamente. É a Recomendação 35 do mesmo documento.
Se o colo ficou (histerectomia subtotal, também chamada de parcial), nada muda: você segue no rastreamento como qualquer mulher da sua faixa de idade. A diferença entre as duas formas está em Histerectomia total ou parcial.
E se você não tem certeza do motivo da cirurgia, o rastreamento é mantido. A diretriz brasileira é explícita nesse ponto, e essa é a conduta segura.
| Sua situação | Rastreamento do colo | Como é feito | Onde está escrito |
|---|---|---|---|
| Colo retirado, cirurgia por doença benigna, sem lesão de alto grau prévia, exames anteriores normais | Pode ser encerrado | Não se aplica | INCA 2025, Recomendação 34 (condicional) · USPSTF 2018 |
| Colo retirado, cirurgia por lesão precursora ou câncer de colo | Mantido | Coleta vaginal, por ao menos 25 anos ou indefinidamente | INCA 2025, Recomendação 35 (condicional) |
| Colo mantido (histerectomia subtotal) | Mantido, como para qualquer mulher | Conforme a diretriz vigente da sua faixa de idade | INCA 2025 |
| Motivo da cirurgia desconhecido ou incerto | Mantido | Coleta vaginal | INCA 2025 |
Por que o exame deixa de fazer sentido em uma situação e não na outra
O preventivo rastreia o colo do útero. Retirado o colo, o alvo do exame saiu junto, e o que sobra é a parede vaginal. O câncer de vagina é raro, e o rendimento do exame em quem não tem mais colo é muito baixo, o que faz o dano potencial do rastreamento (achados de significado incerto, exames adicionais, ansiedade) superar o benefício. Esse é o raciocínio que sustenta a recomendação contrária da força-tarefa americana desde 2018.
A exceção tem base epidemiológica. A diretriz do INCA de 2025 cita um levantamento de 2016 segundo o qual cerca de metade das mulheres com lesão de alto grau ou câncer de vagina havia passado por histerectomia, e quatro em cada cinco dessas cirurgias tinham sido motivadas por lesão precursora ou câncer do colo. O HPV que causou a lesão no colo pode ter comprometido também o epitélio vaginal. Por isso, nesse grupo, o rastreamento continua na cúpula.
As duas recomendações brasileiras são classificadas como condicionais, com evidência de certeza baixa. São orientações razoáveis, não verdades fechadas, e a decisão final leva em conta o seu caso.
Quando o rastreamento é indicado depois da cirurgia
Além dos casos da tabela, a conduta individualiza em três situações. A primeira, imunodepressão, inclusive por HIV, transplante ou medicação imunossupressora, em que os intervalos e o encerramento seguem regras próprias. A segunda, história de lesão de alto grau tratada, ainda que anos antes da histerectomia. A terceira, achado histopatológico inesperado na peça cirúrgica, o que reabre todo o planejamento.
Um recado que importa mais do que o exame em si: parar o preventivo não significa parar de ir ao ginecologista. Continuam valendo a avaliação da vulva e da vagina, o rastreamento do câncer de mama conforme a sua idade, o cuidado com a saúde óssea e, principalmente, o acompanhamento do assoalho pélvico. A revisão de Chang e colaboradores (2025), com 60 estudos e mais de 3,5 milhões de participantes, associou a histerectomia a mais incontinência urinária nos dez primeiros anos e a mais prolapso de órgãos pélvicos depois de dez anos. O prolapso está explicado em Sinto uma bola na vagina.
Como é feita a coleta quando ela é mantida
Sem colo, o exame passa a ser a coleta vaginal, feita na cúpula, que é o topo da vagina fechado na cirurgia. É um exame de consultório, com espéculo, sem preparo especial, e costuma levar poucos minutos. Dor não faz parte do procedimento, e ressecamento vaginal, quando existe, deve ser dito antes da coleta, porque tem tratamento e muda o conforto do exame.
A 3.ª edição das diretrizes brasileiras, de 2025, organizou o rastreamento em torno do teste molecular para detecção de DNA de HPV oncogênico, que substitui a citologia como exame de primeira linha no rastreio organizado. Qual método será usado na sua coleta de cúpula depende do serviço e da indicação, e essa é uma pergunta legítima para levar à consulta.
Recuperação: quando retomar o seguimento de rotina
Nas primeiras semanas depois da cirurgia, a cúpula ainda está cicatrizando, e não se faz coleta nesse período. O retorno pós-operatório serve para checar a cicatriz, em torno de seis semanas, e é nele que a conduta de rastreamento é definida por escrito. Peça isso no relatório: se o seu rastreamento foi encerrado, o motivo precisa estar registrado, para que nenhum profissional futuro reabra a discussão do zero.
Aproveite o mesmo retorno para revisar o que mais mudou. Se as trompas foram retiradas, o assunto está em Tirar as trompas previne câncer?. Se os ovários ficaram, o acompanhamento da menopausa está em Tirar o útero entra na menopausa?. E se a dúvida é sobre retomar a vida sexual, escrevemos em Sexo depois de tirar o útero.
Os prazos de afastamento por procedimento estão reunidos em Quantos dias de atestado depois de uma cirurgia ginecológica.
Cobertura pelo plano de saúde
A coleta de citologia e o teste molecular para HPV constam no rol de procedimentos da ANS e, havendo indicação médica, costumam ter cobertura pelos planos de saúde. A autorização depende de cada contrato, e o pedido segue com a indicação clínica registrada.
O passo a passo da autorização, do pedido à resposta da operadora, está em Cirurgia ginecológica pelo convênio. Se o pedido for negado, o caminho médico está em Meu convênio negou a cirurgia.
Em quais hospitais operamos
Samaritano Paulista, Samaritano Higienópolis, Blanc, Leforte Liberdade, São Luiz Alphaville, São Luiz Morumbi e Alvorada Moema.
Quem faz
A cirurgia minimamente invasiva do Instituto de Ginecologia Avançada é conduzida por Dra. Lorena Cerutti (CRM-SP 219.409, RQE 124.944), Dr. José Ricardo W. Ristow (CRM-SP 206.100, RQE 114.593) e Dr. Carlos Guilherme Del Roy (CRM-SP 216.943, RQE 128.844). Cada caso é discutido entre os médicos.
O que levar na primeira consulta
- Relatório da cirurgia, que informa se o colo foi retirado
- Laudo do anatomopatológico da peça cirúrgica
- Resultados de preventivos anteriores, principalmente os alterados
- Registro de colposcopia, biópsia de colo ou conização, se já fez
- Lista de medicamentos em uso, incluindo imunossupressores
A lista completa, que vale para qualquer consulta cirúrgica, está em O que levar na primeira consulta.
Os exames pedidos antes de uma cirurgia ginecológica, e por que cada um é pedido, estão em Exames antes de uma cirurgia ginecológica.
Perguntas que você deveria fazer ao seu cirurgião
- Meu colo foi retirado?
- Qual foi o diagnóstico final da peça cirúrgica?
- Tenho história de lesão de alto grau que obrigue a manter a coleta?
- Se mantivermos, de quanto em quanto tempo e com qual exame?
- Isso pode ficar escrito no meu relatório?
- O que mais eu preciso continuar acompanhando, além do colo?
O que perguntar sobre formação, registro e volume de quem vai operar está em Como escolher o cirurgião.
Perguntas frequentes
Ainda preciso fazer preventivo depois de tirar o útero?
Se o colo saiu e a cirurgia foi por doença benigna, sem lesão de alto grau prévia e com exames anteriores normais, o rastreamento pode ser encerrado (INCA, 2025, Recomendação 34). Nos demais casos, continua.
Tirei o útero mas ficou o colo. E agora?
Você segue no rastreamento como qualquer mulher da sua faixa de idade, porque o órgão que o exame investiga continua lá.
Não sei por que fiz a histerectomia. O que faço?
Mantém o rastreamento e busca o relatório cirúrgico e o anatomopatológico. A diretriz brasileira orienta manter enquanto não houver certeza de que a indicação foi benigna.
O que é coleta de cúpula?
É a coleta feita no topo da vagina em quem já não tem colo. O procedimento de consultório é o mesmo, com espéculo.
Operei por mioma. Preciso continuar?
Mioma é doença benigna. Com o colo retirado e sem história de lesão de alto grau, o rastreamento do colo pode ser encerrado. O contexto da cirurgia de mioma está em Mioma precisa operar?.
Se eu parar o preventivo, paro de ir ao ginecologista?
Não. Continuam o exame da vulva e da vagina, o rastreamento do câncer de mama conforme a idade e o acompanhamento do assoalho pélvico.
E o teste de HPV, entra nessa conta?
A 3.ª edição das diretrizes brasileiras, de 2025, colocou o teste molecular de DNA-HPV como exame de primeira linha no rastreamento organizado, mudança que a FEBRASGO já vinha detalhando na Femina desde 2022 (Carvalho e colaboradores). Para quem segue em coleta de cúpula, o método usado se define conforme avaliação médica.
Próximo passo
Agende uma avaliação com nossa equipe de cirurgia ginecológica, com o relatório da cirurgia e o anatomopatológico em mãos. Em uma consulta definimos, por escrito, se o seu rastreamento continua, com qual exame e em qual intervalo.
Referências
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero. 3.ª edição revista, atualizada e ampliada. Volume 1: rastreamento organizado com teste molecular para detecção de DNA-HPV oncogênico. Rio de Janeiro: INCA; 2025. Recomendações 34 e 35. Repositório institucional do INCA
- Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025. Aprova as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer de Colo do Útero: Parte I, rastreamento organizado utilizando testes moleculares para detecção de DNA-HPV oncogênico. Publicada em 18 de agosto de 2025. Texto oficial em gov.br
- Carvalho CF, Teixeira JC, Bragança JF, et al. Rastreamento do câncer do colo do útero com teste de DNA-HPV: atualizações na recomendação. Femina. 2022;50(4):200-214. DOI 10.61622/0100-7254504202201
- US Preventive Services Task Force. Screening for Cervical Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2018;320(7):674-686. DOI 10.1001/jama.2018.10897 · PMID 30140884
- Pickett CM, Seeratan DD, Mol BWJ, Nieboer TE, Johnson N, Bonestroo T, Aarts JW. Surgical approach to hysterectomy for benign gynaecological disease. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2023;8(8):CD003677. DOI 10.1002/14651858.CD003677.pub6 · PMID 37642285
- Chang OH, Saldanha IJ, Encalada-Soto D, et al. Associations between hysterectomy and pelvic floor disorders: a systematic review and meta-analysis. American Journal of Obstetrics and Gynecology. 2025;233(3):141-151.e6. DOI 10.1016/j.ajog.2025.03.018 · PMID 40120730
- Piek JM, Schauwaert J, Ellis LB, et al. Opportunistic Salpingectomy for Prevention of Tubo-Ovarian Carcinoma: The European Society of Gynaecological Oncology Consensus Statements. JAMA. 2026;335(10):894-902. DOI 10.1001/jama.2025.24510 · PMID 41627806
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- Dor pélvica
- Antes e depois da cirurgia
Ficou com dúvida sobre o seu caso?
Agende uma avaliaçãoAssinado por Dr. Lucas G. S. Baptista, MÉDICO: CRM-SP 184.500 · Ginecologista: RQE 104.283, e revisado em 18/09/2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.
